Um vento frio de repente cortou seu pensamento. Parou. Respirou fundo e olhou ao redor. Sentiu outra vez... O que viria agora?
- Um convite para ver o lago? - sorriu entre as árvores.
- Quem é você?
- Aquilo que veio buscar...
Era belo, amedrontador e de uma luz fria. Caminhava agora ao seu encontro, os olhos dele tentavam enfeitiçar os dela. Tinha um jeito de andar, como se o mundo parasse para dar-lhe licença. Não havia a imponência do Armand, nem a sutileza encantadora daquele que a protegeu... caminhava com objetividade e não se deixava entreter por nada, era como se soubesse muito bem o que queria. Todos eles sempre aparentavam ter um motivo difuso, como mística.
Levou a mão aos cabelos dela e após sentir o aroma, abaixou e beijou-lhe as mãos... era como se vesse em sua frente um cavaleiro antigo... traiçoeiro e cheio de sombras, mais ainda sim, cortês.
- O lago ficará lá por muitas outras eras ainda... mas eu só tenho até o amanhecer.
O sorriso dele parecia de um mago, astuto. Convidativo.
Tomou-a pelos ombros e quando nossa pequena se deu conta
já estava vendo o reflexo de um encontro caótico
à luz das estrelas passantes. Ele parecia concentrar
em si um poder emanante que a entretia. Não era
possível saber se havia conversa, ou ela apenas
fantasiava... mas uma coisa ela tinha certeza... havia falhado...
agora era ela a caça.
Sentiu uma dor pontuda, algo morno escorreu por seu pescoço... "o que era aquilo?" perguntou-se cambaleantemente... viu o mundo passar devargazinho... quase fugidio. A cabeça doeu, o ouvido quase explodia com o som da avenida movimentada... dos insetos... das águas. Caiu.
A lua resplandecia, trepidava... era como uma viajem de LSD que ela sempre havia ignorado nas rodas da escola... era como... como... ela não sabia... não havia nada que houvesse conhecido com a leveza e o peso daquilo.
Ouviu uma briga... assistia uma luta... alguém foi jogado ao lago. Tentou se levantar... em vão... não conseguia sentir as pernas. Apoiou-se na terra, rastejou até uma árvore próxima, usou toda força que restava para ficar em pé. Era difícil... sentia uma vertigem... a blusa estava empapada com... "ah, meu Deus!" havia se dado conta... Era sangue!
Seus sentidos estavam atrapalhados, truculentos... a respiração voltava ofegante... o ser das árvores voltava... sentiu medo... tentou se desvincilhar, inutilmente.
- ... calma... eu vim terminar o que comecei... não tenha medo... queria experimentar-nos...pois fará seu experimento!
- o que é isso?
- é o mundo... do lado de fora... hahahahaha...
Agarrou-se à arvore para não cair. A luta recomeçara, haviam dois... ele... e o outro. Seu coração sorriu, aqueceu-se... e ela perdeu os sentidos.
A última coisa que ouviu foi um urro de dor, um baque e o sussurro que ela conhecia bem.
- ... respire... apenas respire... eu vou fazer tudo ficar bem.