a volta  escrito em quarta 12 novembro 2008 23:12

As frutas olhavam para ela, a encaravam como de canto de olho em uma pergunta: "E então? O que vai ser?". De repente se lembrou de quando era pequena e comia algo que lhe caía mal no estômago, a mãe sempre a oferecia frutas... frutas eram sempre mais fáceis de engolir.

A sensação da solpa voltou... era horrível e não sabia se queria passar por aquilo outra vez. Parou um pouco, pesando.

De lá, de onde estava, assim no parapeito da janela, podia ver os carros se movimentando lá embaixo. Olhou ao redor, tentando reconhecer o local. Procurando por algo familiar.

Foi quando, de súbito, veio lhe um idéia na cabeça, "maçã é anti-hemético", havia lido em algum lugar. Havia procurado por aquilo também, anti-hemético significa: você come e não vômita. Se queria saber o que estava acontecendo e voltar para casa aquele era um passo impressíndível, e ela havia entedido bem.

Respirou fundo... fechou os olhos. Se decidiu. Seria a maçã. O cheiro azedo no chão apagava bastante sua expectativa. Maçã. Soltou um suspiro continuado. Teria o dia inteiro pela frente. Começava a se sentir meio zonza novamente, como se estivesse gripada, o corpo doía e o ar faltava. Cansaço, cansaço, cansaço, sem fazer nada. Será que estaria doente?

Seus olhos pararam sobre a maçã e ela a pegou. Sentiu o cheiro doce e pairou os pensamentos sobre o vermelho... o sangue. Ela não estava mais suja, mas se lembrava bem. Era isso então? Havia sido mordida? De repente todas as palavras tortas, as entrelinhas e tudo aquilo o que havia incansavelmente pesquisado começaram a se casar e a fazer sentido. Estava indecisa entre a inevitabilidade e o pânico. Mordeu a maçã.

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...o começo do amanhecer...  escrito em quarta 14 novembro 2007 19:03

Ele estava lá. Sorriu um sorriso tranquilo, mas que aos poucos pareceu à ela querer esconder um pouco de preocupação estampada...

 - ... você dormiu bem... heim...

 - Onde estamos?

 - Em um lugar seguro... você ainda está  fraca demais para sair por aí!

A fez sentar novamente... de fato, a cabeça dela rodava um pouco, como se não me alimentasse há dias. Considerou o tempo que havia passado sem consciencia de si e atreveu-se a perguntar.

 -... mas e os meus pais? eles devem estar preocupados... vc me parece preocupado.

Sorriu mais uma vez, como se quisesse convencer a nossa garotinha do contrário. E então entregou-lhe um prato de sopa.

 - Você tem q se esforçar e comer.

Ela imaginou que ele estava exagerando... comer sopa não era uma coisa tão difícil assim, pelo menos não lhe tinha parecido que fosse até agora. Logo mudou de idéia, assim que o primeiro bocado caiu em seu estômago sentiu como se Hiroshima e Nagasaki explodissem de novo... fez mensão de vômitar. Ele cuidadosamente tapou o nariz dela e segurou sua cabeça.

 - Denovo!

 - Eu não posso! Não consigo!

 - Tem que conseguir! Mais uma vez...

Suspiro profundo na tentativa de encher de ar aquele gosto dilacerante... fechou os olhos e prendeu a respiração... outra vez... parecia que o estômago estava fechado... vômitou. Era horrível demais para continuar, seu estômago doia absurdamente, tanto que se desfez em um grito:

 - PARE! POR FAVOR... pare! - suspirou -  eu não consigo...

Deitou de volta na cama e virou para o outro lado.

 - ei... - ele continuou - preste atenção em mim... você tem que conseguir para voltar a ver seus pais e ter a vida que você tinha... está ouvindo?

 - O que raios aconteceu? Por que esta acontecendo isso comigo?

 - Você deu sorte de eu chegar a tempo... primeiro coma... tem algumas frutas ali... tente desesperadamente comer... não saia daqui... primeiro coma... depois eu prometo que explicarei tudo...

E então chegando bem perto ao rosto dela, como se tocasse sua face com a respiração... sussurou:

 - ... confie em mim... vai ficar tudo bem...

Beijou-lhe a face e saiu... Algum tempo depois olhando pela janela, ela pode notar o sol nascendo por de trás dos telhados das casas... e concluir... havia preocupação no rosto dele...

 

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O fim da noite...  escrito em sábado 06 outubro 2007 03:22

Começava a anoitecer, o crepúsculo aos poucos ia tomando conta do céu em seu espetáculo lúgubre. Acordou... havia dormido a noite toda, o dia inteiro, sentia-se cansada. Olhou ao redor, apenas a escuridão adentrava a sala. Sentiu frio... nas paredes as primeiras luzes da cidade faziam desenhos engraçados, haviam móveis antigos por toda a extensão do seu olhar. Estava assustada, mas ao mesmo tempo, era como se se sentisse em casa.

Fora delicadamente coberta, ela diria até que alguém velou por ela nos primeiros minutos com um carinho que ainda estava impresso nas pilastras daquele cômodo. Mas agora estava sozinha e a escuridão crescia, era estranho sentir-se aconchegante, tão estranho que seu coração começou bater cada vez mais forte.

Encolheu-se nas cobertas e fechou os olhos... ainda estava cansada... os abriu novamente e as luzes agora dançavam pela parede, incandescentes. Piscou profundamente e foi tomada por um sono pesado.

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A noite - parte II  escrito em sexta 31 agosto 2007 23:32

Um vento frio de repente cortou seu pensamento. Parou. Respirou fundo e olhou ao redor. Sentiu outra vez... O que viria agora?

- Um convite para ver o lago? - sorriu entre as árvores.

- Quem é você?

- Aquilo que veio buscar...

Era belo, amedrontador e de uma luz fria. Caminhava agora ao seu encontro, os olhos dele tentavam enfeitiçar os dela. Tinha um jeito de andar, como se o mundo parasse para dar-lhe licença. Não havia a imponência do Armand, nem a sutileza encantadora daquele que a protegeu... caminhava com objetividade e não se deixava entreter por nada, era como se soubesse muito bem o que queria. Todos eles sempre aparentavam ter um motivo difuso, como mística.

Levou a mão aos cabelos dela e após sentir o aroma, abaixou e beijou-lhe as mãos... era como se vesse em sua frente um cavaleiro antigo... traiçoeiro e cheio de sombras, mais ainda sim, cortês.

- O lago ficará lá por muitas outras eras ainda... mas eu só tenho até o amanhecer.

O sorriso dele parecia de um mago, astuto. Convidativo.

Tomou-a pelos ombros e quando nossa pequena se deu conta já estava vendo o reflexo de um encontro caótico à luz das estrelas passantes.  Ele parecia concentrar em si um poder emanante que a entretia.  Não era possível saber se havia conversa, ou ela apenas fantasiava... mas uma coisa ela tinha certeza... havia falhado... agora era ela a caça.

Sentiu uma dor pontuda, algo morno escorreu por seu pescoço... "o que era aquilo?" perguntou-se cambaleantemente... viu o mundo passar devargazinho... quase fugidio. A cabeça doeu, o ouvido quase explodia com o som da avenida movimentada... dos insetos... das águas. Caiu.

A lua resplandecia, trepidava... era como uma viajem de LSD que ela sempre havia ignorado nas rodas da escola... era como... como... ela não sabia... não havia nada que houvesse conhecido com a leveza e o peso daquilo.

Ouviu uma briga... assistia uma luta... alguém foi jogado ao lago. Tentou se levantar... em vão... não conseguia sentir as pernas. Apoiou-se na terra, rastejou até uma árvore próxima, usou toda força que restava para ficar em pé. Era difícil... sentia uma vertigem... a blusa estava empapada com... "ah, meu Deus!" havia se dado conta... Era sangue!

Seus sentidos estavam atrapalhados, truculentos... a respiração voltava ofegante... o ser das árvores voltava... sentiu medo... tentou se desvincilhar, inutilmente.

- ... calma... eu vim terminar o que comecei... não tenha medo... queria experimentar-nos...pois fará seu experimento!

- o que é isso?

- é o mundo... do lado de fora... hahahahaha... 

Agarrou-se à arvore para não cair. A luta recomeçara, haviam dois... ele... e o outro. Seu coração sorriu, aqueceu-se... e ela perdeu os sentidos.

A última coisa que ouviu foi um urro de dor, um baque e o sussurro que ela conhecia bem.

- ... respire... apenas respire... eu vou fazer tudo ficar bem.

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A noite  escrito em domingo 26 agosto 2007 17:34

Andava agora pela rua fria e triste, que se escondia por trás do prédio da biblioteca... era mais um caminho desenhado no meio do mato do que uma rua propriamente dita. Escura e vazia, protegida do olhar curioso das pessoas e dos carros que cortavam a avenida lá à diante. Entre a avenida e a rua, o lago... e as árvores entretidas sob o olhar canbalente da via-láctea à cima.

Aquele caminho era perigoso, se sentia desprotegida... mas talvez isso fosse exatamente o que ela queria. Uma isca... sim... uma isca. Nada de livros ou suposições a cerca daqueles extranhos seres, ela estava desperta, queria o único conhecimento que poderia salva-la... o empírico... baseado em experiências... suas experiências.

O coração batia, cada vez mais forte e mais rápido, havia um friozinho na barriga e o ar gelado do medo que tornava tudo tão absurdadmente encantador.

Ela precisava descobrir o que era aquilo que sentia e por que ela, somente ela, os via. Era bem verdade que a mãe também havia visto, mas o pai nada percebera e ninguém nunca havia de fato afirmado que aqueles estranhos fantasmas pudessem mesmo ser reais. Era essa a parte que ela precisava entender, era por essa parte tão substancial que ela caminhava agora sozinha... no meio do mato, atrás das árvores olhando para o lago que refletia a imagem triste e fria da lua lá em cima num céu nublado. 

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